Planejamento da seca começa um ano antes e é decisivo para a produtividade da pecuária

A redução das chuvas e a previsão de menor disponibilidade hídrica para os próximos meses acendem um alerta para a pecuária tocantinense. De acordo com o mais recente Boletim de Impactos de Extremos de Origem Hidro-Geo-Climático, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o oeste do Tocantins apresenta condições de seca moderada e severa, enquanto a bacia Tocantins-Araguaia deve registrar vazões abaixo da média ao longo do período seco.
Embora o cenário exija atenção dos produtores, especialistas destacam que a preparação para enfrentar a estiagem não começa quando as chuvas terminam. Pelo contrário: o planejamento da seca deve ser iniciado com cerca de um ano de antecedência.
Para o presidente da Novilho Precoce Tocantins, Ricardo Passos, a antecipação das decisões é um dos principais fatores para garantir produtividade e reduzir custos na propriedade.
"O produtor que espera a seca chegar para agir normalmente trabalha com medidas emergenciais. O planejamento antecipado permite organizar a produção de alimento, administrar melhor os recursos da fazenda e enfrentar o período seco com mais segurança", afirma.
Segundo o chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Pesca e Aquicultura, Pedro Alcântara, o encerramento do período das águas é justamente o momento em que o produtor começa a planejar a estiagem do ano seguinte.
"É nessa fase que são definidas a compra de insumos e a produção de volumosos, como silagem e feno, que só podem ser produzidos durante o período chuvoso e serão utilizados na seca seguinte. Quando termina um ciclo de chuvas, a propriedade já precisa estar pensando na próxima estiagem", explica.
Durante a seca, a qualidade nutricional das pastagens diminui gradativamente. No entanto, Pedro destaca que o primeiro desafio é garantir quantidade suficiente de forragem.
"Se não houver forragem em quantidade adequada, qualquer estratégia de suplementação terá efeito limitado. À medida que o capim perde qualidade, principalmente proteína e energia, a suplementação precisa ser ajustada conforme a disponibilidade de alimento na propriedade", ressalta.
Além da alimentação, o especialista recomenda atenção permanente ao abastecimento de água, à limpeza dos bebedouros e ao manejo dos cochos, evitando o acúmulo de água e a deterioração dos suplementos. Também orienta que os protocolos sanitários, como vacinação, vermifugação e controle de ectoparasitas, permaneçam em dia, já que as mudanças na dieta e o estresse nutricional podem reduzir a imunidade dos animais.
Para Ricardo Passos, não existe uma única solução para enfrentar a estiagem. A escolha da estratégia depende da realidade de cada propriedade, mas o planejamento nutricional precisa fazer parte da gestão da fazenda.
"A estratégia nutricional para a seca é determinante para o sucesso da pecuária a pasto. Existem diferentes alternativas, como reduzir a lotação da fazenda, utilizar pasto diferido, produzir volumoso por meio de feno ou silagem, investir na integração lavoura-pecuária ou até no confinamento. O importante é que o produtor tenha uma estratégia definida, porque quem não se prepara acaba sendo surpreendido pela seca", afirma.
O presidente da Novilho Precoce Tocantins destaca ainda que o desempenho do rebanho é um dos principais indicadores da eficiência da propriedade.
"Se o produtor chega hoje na fazenda e percebe que o rebanho está perdendo peso, isso é um termômetro de que o negócio não está indo bem. O 'boi sanfona' e a 'vaca magra' comprometem a produtividade, aumentam os custos e podem inviabilizar a atividade ao longo dos próximos anos. A pecuária moderna exige planejamento e animais produzindo de forma consistente durante todo o ano", conclui.