Crédito caro e risco no campo desafiam setor de sementes de soja nos próximos anos

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O mercado de sementes de soja deve enfrentar mais um ano de margens apertadas, acompanhando o atual momento que vive o agronegócio brasileiro, Entre os fatores que mais preocupam estão o crédito restrito, os juros elevados e o endividamento do produtor rural que cresceu de forma muito agressiva nos últimos anos.
Segundo uma análise feita pelo sócio-diretor da Agroconsult, André Pessoa, durante o Enssoja 2026, a dívida do setor da soja passou de R$ 60 bilhões, antes da pandemia, para R$ 180 bilhões. “É dívida para pagar dívida”, disse. Pessoa ainda destacou o cenário em que vive o mercado de crédito no país, com maior seletividade e exposição ao risco o mais limitada possível, impactando diretamente o planejamento e o custeio da produção nacional.
“O problema político ainda precisa ser resolvido e o comercial segue desafiador. O mercado terá que proteger os clientes que ainda conseguem permanecer no jogo, enquanto a disputa pelos melhores compradores ficará ainda mais intensa”, afirmou.
Na prática, o executivo acredita que a safra atual deverá registrar menor disponibilidade de sementes, além de possíveis problemas de qualidade em algumas regiões produtoras. Ainda assim, ele pondera que o excedente de produto tende a ser menor do que o observado na temporada passada, quando o excesso pressionou fortemente os resultados do setor.
“Não deve haver tanta sobra de sementes como houve no ano passado. Isso pode ajudar um pouco no resultado final, mas as margens continuarão bastante apertadas”, destacou.
O consultor afirmou ainda que a competição comercial deve se intensificar justamente em função da restrição de crédito e do aumento do risco financeiro dentro da cadeia do agronegócio. Para ele, o momento exige maior disciplina financeira e rigor na concessão de crédito. “A mensagem para o setor é clara: será um ano difícil na parte comercial e com muita atenção na avaliação de risco dos clientes”, reforçou.
MUDANÇAS NO FINANCIAMENTO DA PRODUÇÃO
Durante sua apresentação, André Pessoa também chamou atenção para a mudança estrutural no financiamento da agricultura brasileira. Segundo dados apresentados por ele, o crédito rural equalizado respondeu por apenas entre 20% e 25% das necessidades financeiras dos produtores de grãos na última safra.
Isso significa que cerca de 80% do financiamento do setor já ocorre via mercado privado, envolvendo tradings, barter, fornecedores de insumos, distribuidores de sementes, defensivos e fertilizantes. “O mercado já opera majoritariamente com taxas de juros de mercado e recursos privados, sem passar pela equalização do Tesouro”, explicou.
Na avaliação da Agroconsult, a tendência é que essa participação do crédito subsidiado diminua ainda mais nos próximos anos. Com o aumento do custo de produção e da necessidade de capital para financiar as lavouras, o peso do crédito privado deve continuar crescendo.
Pessoa destacou que o Plano Safra segue importante, principalmente para cooperativas, médios e pequenos produtores, mas ponderou que grande parte do agronegócio brasileiro precisará se adaptar definitivamente a um ambiente de juros de mercado.
O consultor também defendeu a necessidade de reformas estruturais e de novos modelos de financiamento para reduzir a vulnerabilidade do setor em momentos de crise. “Precisamos construir alternativas para que o crédito chegue mais barato. O setor precisa encontrar novos modelos de financiamento para sair dessa armadilha”, afirmou.
Para os próximos anos, a perspectiva ainda é de cautela. Segundo André Pessoa, o agronegócio deverá atravessar ao menos dois anos de maior aperto financeiro antes de uma possível retomada mais consistente.
“A expectativa é de um período de forte disciplina financeira entre 2026 e 2028. Será necessário eficiência, controle de crédito e muita gestão para atravessar esse ciclo”, concluiu.
PERSPECTIVA DOS SEMENTEIROS
O presidente da AMSSOJA Brasil (Associação dos Multiplicadores de Sementes de Soja do Brasil), André Schwening, afirma que o atual momento é, portanto, de uma união da cadeia sementeira para passar driblar os desafios e encontrar soluções eficientes.
"Como a atividade agrícola, a atividade sementeira sente o momento muito desafiador. São momentos duros os que temos vivido, não só os que tangem ao negócio em si - cenários de oferta e demanda, margens, liquidez, que é algo que nos preocupa muito e precisa de um olhar com muito foco - mas também o cenário externo reflete muito nos nossos negócios. É um novo normal e temos que nos preparar, nos planejar, e sermos resilientes para vencer todas essas dificuldades", diz.
Tanto Schwening, quanto Pessoa afirmam que as margens que o sojicultor fará nas próximas temporadas estão muito conectadas também à boa escolha dos insumos, começando pela semente. Os sinais são de que o produtor deva pisar no freio na aquisição de seus insumos, em especial os fertilizantes pelo peso que exercem sobre os custos de produção, porém, no cuidado redobrado com a escolha da semente e boa parte da produtividade garantida, há mais espaço para o produtor de soja mitigar os efeitos que hoje pesam sobre os preços e pressionam suas margens.
"A gente busca a evolução para levar ao nosso cliente final uma semente de maior qualidade com tudo o que ela oferece, com tudo o que leva em conjunto de tecnologia, de desenvolvimento de pesquisa", conclui.